AGROPECUÁRIA CONCURSOS COTIDIANO CULTURA ECONOMIA EDUCAÇÃO ESPORTE EVENTOS JUSTIÇA MEIO AMBIENTE POLÍCIA POLÍTICA REGIÃO SAÚDE SOCIEDADE
 
12/08/2019
ARTIGOS & OPINIÃO
Um pouco da grande África
MARCOS MANOEL
Professor, pedagogo, historiador, escritor e pós-graduando em docência do ensino superior.
 
 

COMPARTILHAR  

Estudos antropológicos, arqueológicos e históricos da África, exigem um mergulho mais profundo em águas turvas e turbulentas, as quais desvelam além de um gigantesco universo geográfico, econômico, cultural e multiétnico, desmistifica e desconstrói os estereótipos equivocados que ainda permeiam o imaginário, sobre esse fascinante continente.

Anderson Oliveira Oliva, em seu artigo: A Invenção da África no Brasil: Os africanos diante dos imaginários e discursos brasileiros dos séculos XIX e XX referencia sua discussão, destacando de início o recorte temporal – XIX e XX – norteando as questões levantadas. Destacando a necessidade do afastamento dos campos econômicos, política externa, relações pessoais e culturais, como também no campo do imaginário. O que gerou uma construção falseada e muito distante da essência cultural africana.

Esse processo, ainda segundo Oliva, observamos a representação dos africanos pelo imaginário europeu, consolidando o olhar eurocêntrico e o distanciamento da realidade africana, sua histórica diversidade cultural e infindas riquezas naturais. Durante algum tempo, outro aspecto relevante abordado pelo autor, foram os movimentos de afastamento e aproximação da África, quebrando de – tempos em tempos - longevos períodos de silêncio e separação entre bantos e sudaneses, os “mais primitivos” e os “menos primitivos” respectivamente.

Outro aspecto que contribuiu e é considerado parte desse conjunto de ingredientes constitutivos para o adormecimento dessas relações, para Alberto da Costa e Silva, o primeiro, o fim do tráfico negreiro para o Brasil; o segundo, a instalação dos domínios coloniais europeus, o Imperialismo no final do século (XIX) e o período pós-independência, em grande parte na segunda metade do século XX. “O que separava deixou de ser um rio e tornou-se um oceano”.

A memória ficou refém de algumas imagens e por razões óbvias (escravidão) como laços entre os dois lados do Atlântico. Como o próprio autor afirma, uma ponte “frágil” foi uma tentativa se restabelecer uma relação (segunda metade do século XX) e com avanços e retrocessos. Como a crise internacional e o processo de redemocratização brasileiro, que forçosamente resultou em um novo afastamento, abrindo caminho para aproximação da América do Norte.

As políticas em relação aos negros no Brasil e a África durante os Governos entre 2003 – 2011, Sobra Saraiva, afirma “a “dívida histórica” com os africanos; a vocação universalista da política externa brasileira [...]” e as perspectivas de mudanças desse olhar sobre a “construção do imaginário brasileiro em relação à África, na visão de intelectuais e dos movimentos negros organizados”. Portanto, segundo Oliva, o conhecimento e as referências sobre os africanos, continuam longe “da memória e dos olhares de grande parte dos brasileiros”, mesmo frente ao grande legado cultural africano, não foi o suficiente para um olhar diferente, que de uma África homogênea e europeia.

Percebemos também, que além dessa construção histórica equivocada, a mídia fomentou, teve e tem papel de destaque em reforçar, rotular o continente africano, marcado apenas por catástrofes, guerras, violência, indigência, miséria, além da ínfima contribuição cultural e política. Ingredientes perversos na construção desse imaginário depreciativo, deturpado, racista sobre uma África muito maior do que aquela que seus infames invasores semearam e saquearam. Nesse universo sobre a cultura africana e suas contribuições na formação do povo brasileiro, por exemplo. Três grandes autores, entre outros, sintetizaram e definiram essa relevância histórica e cultural, na construção das riquezas dos canaviais e cafezais brasileiros: Raimundo Nina Rodrigues, Sílvio Romero e Caio Prado Júnior [...].

Portanto, compreendermos a África sob a perspectiva da ciência, o crivo da análise crítico-reflexivo, sob a ótica do processo de formação histórico, étnico e cultural no continente africano. Indiscutivelmente, contribuirá para a ruptura de paradigmas, transposição de barreiras vergonhosas de séculos e séculos de enganos, equívocos e uma visão míope, maldosamente construída, distorcida sobre uma terra, um povo, uma cultura milenar, que para muitos, ainda faz parte de um universo distante, surreal, selvagem e imaginário. Alicerçado na ignorância, preconceitos, racismo, frente a uma história contada apenas por um lado e que não foi o do africano. Desconstruir essa imagem da África – após essas leituras e o mergulho nesses autores -, possibilitar-nos-á a superar estereótipos há tempos construídos e arraigados em bases deturpadas e de absoluto desconhecimento.

A leitura é fonte inesgotável do conhecimento, possibilitando um eviterno descortinar crítico sobre esse processo histórico, cultural africano e como os afrodescendentes mantiveram suas raízes, mesmo frente à diáspora, aos desafios geográficos e a opressão.

 

 

 


Últimas Notícias
 
PIS começa a ser pago nesta quinta-feira
 
Veículos do transporte escolar de Caiapônia são aprovados em vistoria
 
Coopafego está emitindo certificado digital

© 2018. Todos direitos reservados a Folha de Caiapônia. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.